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terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

O Conto da Liberdade

Um dia eu sonhei que era um pássaro. Quão maravilhosa fora a minha sensação de leveza.
Eu não tinha ninho. Passava o dia passeando, procurando alimento e voando. Era muito agradável o que eu sentia lá no íntimo. Não precisava me preocupar com ninguém. Só eu existia para mim.
Qualquer sinal de quebra da minha rotina eu voava para longe. Minha vida era como se eu fosse um adolescente. Com um mundo só meu, nada percebia o que acontecia ao meu redor. Absorta em meus pensamentos. Alheia aos outros.
Julgava-me feliz. Ninguém me prendia porque eu não cantava, embora eu fosse um pássaro lindo. Companhia, só a minha.
Um dia eu estava parada em um fio de eletricidade e avistei um lindo pássaro enorme. Era charmoso. Fiquei impressionada.Ele me olhava de um jeito sedutor. Jamais havia visto um ser tão admirável.
Ficamos nos olhando de longe. Ele embora me quisesse - eu senti - não me encarava. Achei estranho, mas nem liguei para esse detalhe.Tínhamos penas, asas e o fato dele ser bem maior não me impedia de querê-lo cada minuto mais.De repente percebi que estava longe de onde costumava dormir. O sol já estava se pondo.
Outros pássaros passavam por mim e diziam algo, mas eu não consegui escutar. Tentaram chamar a minha atenção enquanto seguiam para descansarem. Deveria ser algo sem importância.
O meu coração estava aos pulos. Descompassado. Eu vibrava a cada batida de asa em sua direção.
Aproximei-me do lindo pássaro. Quem sabe ele não estaria sentindo o mesmo que eu!
Ele galante me elogiou. Achou as minhas penas lindas. O colorido refletia um brilho ímpar, ele me dissera.
Comecei a sentir coisas inexplicáveis. Um desejo enorme de estar em seus braços e tê-lo como eterna companhia. A paz que eu sentia, dera lugar a inquietação.
Logo depois eu senti um pavor aterrorizador. Uma dor inimaginável em minha patinha esquerda.
Meu lindo pássaro era na verdade um gavião-rei. Ele havia deixado nas montanhas sua família e saíra em busca de alimentos. Eu, literalmente, seria a comida.
Desesperadamente quase que esperando um milagre, reagi e me livrei de suas garras caindo em queda livre.
Cheguei a terra fofa da praia muito machucada. Desmaiei e quando acordei estava sendo cuidada por uma criança que conversava comigo e quando notou que despertei ficou super feliz e correu para avisar a sua mãe.
O tempo foi passando e eu me apeguei àquela criança. Tinha dificuldade para andar e não podia voar.
Agora possuía um ninho que era todo cercado. A porta pesada para minha débil força. Como não cantava, jamais alguém parava em frente a mim. Passavam e nada de beleza enxergavam.
Passei a ter ojeriza pela liberdade.Minha proteção e alimentação estava de um vez por todas nas mãos daquele ser tão meigo e cheio de amor por mim.
Vieram a mim outros sentimentos que jamais eu conhecera: medo, covardia, insegurança, melancolia e solidão.
Fui me acomodando e mesmo sem entender o que a criança falava fui confiando em seu amor. Eu também o amava. As mudanças me assustavam. Era tudo de acordo com o balanço do ninho.
Uma manhã ensolarada e cheirosa, a criança levou-me em suas mãos para fora de sua casa. Imediatamente, lembrei-me do insidioso pássaro. Minha patinha já estava curada, mas encarar a liberdade mais uma vez, era demais para mim.
Logo em seguida, senti todo o meu corpo adormecer e uma dor intensa e fatal adentrando o meu coração.
Havia morrido no sonho.
E assim, vê-se que há na vida um remédio bem caro chamado reação. Muitos podem até dizer que são fáceis as mudanças depois de uma tempestade. Na verdade, não são.
Bem-estar começa na mente, vai percorrendo o espírito e por fim chega ao corpo. Já vi muitos sem esta ferramenta que só a sábia liberdade traz. Tudo numa conexão necessária para os embates e emboscadas das quais vamos nos metendo, por assim dizer, serem com saídas.
Perder de vista a liberdade e voltar a vê-la dá medo mesmo, mas com cautela a gente vai levando. Levando essa vida!

Valéria Hidd - Escrito em Janeiro de 2007.








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