Cada dia vejo que tenho razão em minha posição em relação a vida aqui na Terra. Não tem sentido algum. Não pode ter. A não ser que minha visão seja turva ou torcida para lá e para cá. Visão de bebum, de gente que nada compreende, portanto nada sabe.
Faltava uma semana para as aulas de Galeno começarem e, eu estava finalizando as compras para sua nova empreitada. Tudo novo. Inclusive o colégio. A mochila não tinha necessidade de trocar. A do ano passado é do Ben Dez. Uma malinha. Ele com os olhos mais abertos que o comum - sua marca quando quer condicionar sua fala e vontade - explicou-me que aquela seria para usar em viagens e a desejada, dessa vez do Homem- Aranha, seria apenas para o uso como aluno. Assim seus materiais jamais seriam perdidos. Principalmente as borrachas que parecem ter pés próprios. Andam sempre por aí. Algumas são encontradas sem pedaços. Mastigadas.
Argumentos aceitos. Mochila nova comprada. Já a farda me trouxe chateação. Um único lugar a vende. E não tinha a calça.
- Poxa, mulher, como não tem a calça? As aulas começam segunda. Vocês não se prepararam direito , não.
Saí da loja só com as blusas e rumei para a fábrica. Chegando lá para meu espanto também não tinham as calças. Pasmei!! Isso não pode ser. Vocês são os únicos a venderem e não há farda? Sem arrumar barraco, porque eu odeio falta de glamour, pedi para falar com alguém acima da atendente ou vendedora, nem sabia o que a moça era. Deve ser tudo. Fica mais fácil e barato.
- A senhora quer falar com o dono? É aquele ali!!
Um sábado antes do sábado de carnaval. Dia de Corso em Teresina - festa tradicional, onde todos se fantasiam e percorrem um trecho da av. Raul Lopes. Muito animada e que está no livro dos recordes Guinness Book, pela enorme concentração de pessoas e que a cada ano aumenta - tudo bem que o cara era pobre e ficou rico fazendo fardas e camisas de propagandas e abadás e que seja mais próspero a cada ano. Amém! Mas se é monopolizado o fardamento, uma solução haveria de ter. Eu estava "puta" de raiva, mas me segurando numa educação de primeira, que não foi aprendida com meu avô carcamano.
- Tenho sim, as calças. Estão na lavanderia. Irei mandar abrir. Quantas a senhora quer?
O cara estava tipo como quem está num feriado. De blusa de malha e bermuda. Eu acho legal a pessoa ser profissional toda hora em ambiente de trabalho. É calca comprida mesmo! Mas não tenho nada a ver com o estilo dos outros. Sei de histórias que ele é trabalhador. Enfim, esperei....esperei...esperei...Chegou uma Hillux do governo do estado ( será que tem que escrever isso de letra maiúscula?). O cara foi atender a tal mandona que dizia: se você não tem para agora, vou comprar na mão de fulano!! Sabemos que governos são bons compradores. O dinheiro não é deles!! Rum...ahhhh....estou sendo maldosa?? A única coisa que eu queria era a farda do meu filho. Queria três calças azuis-marinho.
Não é que o cara me esqueceu?! Algum anjo passou por perto da minha mente que não estava nada em paz. Meu Eu dizia: arruma um barraco logo, porra!! Com a voz entrando na minha cabeça como uma melodia, o anjo cantou: "compre o tecido e corra atrás de uma costureira". Levantei. Fiquei nos altos dos meus 1,70m e saí caminhando para o meu carro. Que lá no sol, ardia em chamas invisíveis. A moça grtou: senhora!!
Mas o anjo que veio ficar comigo não deixou eu me virar para dizer: vão se fuder!!
A caminho do local que vende os tecidos, fiz a ligação que dependia a minha paz no final de semana:
- Edna, mermã, salva-me!! Faz uma calça de farda p Galeno ir segunda para aula. O bichim é tímido. Não dá para ir diferente dos outros e é seu primeiro dia de aula nesse colégio. E......
- Calma! Traga o tecido e o modelo!
Deu tudo certo. Levei o tecido. Não levei o modelo. Mas é farda. Farda é farda.
Cheguei em casa e contei para Nilde, figura interessante que trabalha como doméstica em minha casa. Típica do nordeste. Mete suas falas em tudo, inclusive quando estou conversando com meu marido ou reclamando de um filho, ou até mesmo quando estou ao celular. Sua opinião é coisa que se escuta a todo momento. E ela tem razão em tudo. Nunca está errada. E quando a olho com cara de quem quer matar um, ela logo diz: " por isso é hipertensa!! Doida demais"!
Nilde não achou meu problema grande. Deu de ombros para mim e disse:
- Pior é a prima do meu marido. Não tem onde cair morta e está grávida de gêmeos. Ela não só tem vontade de mandar os outros se fuderem, como manda mesmo!! Tá revoltada com Deus, porque ele mandou dois filhos para ela.
Fiquei caladinha. Tem sentido isso? Como uma pessoa que mal sobrevive, engravida de gêmeos? Uma coisa chamada genética trouxe a dádiva, mas quem levou a culpa foi Deus.
E vou parar por aqui, porque daí vem tantas coisas que poderiam evitar essa situação. Não que não transar seja a solução...mas preservativos existem de graça pelo SUS....e lá lá lá lá
Uma coisa eu tenho certeza: a consciência de cada um é ímpar e quanto menos instrução, menos se conhece o bom senso. A civilização corre em passos de formigas de um lado e de outro como o papa légua. O coite sempre inocente, perde todas. Assim, Eu, Galeno, a mochila, a farda, os interesses, a educação, o sol, a mente, a costureira, Nilde, a prima do marido, a genética e Deus, vão se misturando numa batedeira imensa. E o bolo da vida, para mim, fica cada dia mais sem sentido.
O jeito é viver sem dar ar demais ao balão da vez! Melhor dizendo: Não dar grande ênfase àquele problema. Pelo menos eu quero crer que seja essa a melhor coisa a fazer!
Valéria Hidd
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