Dentro do silêncio há tantas palavras perturbadoras! Desde criança ela achava injusto o calar como respostas. Claro que sabia que era o não oculto. Aquela coisa que faz criar os questionamentos. Então foi assim que foram criando as contradições, ou melhor, foi assim que ela jamais conseguiu entender os nãos ou os sins. Quem cala não consente. Omite o não. São fatores que vão formando o jeito de ser da pessoa. Embora não entendesse que iria dar um não, querendo dizer o contrário, várias vezes. Ela odiava essas contradições. Feito dizer, sai da minha vida, nunca mais quero vê-lo. Rezando e implorando para que ele faça o contrário. Que puxe-a e agarre-a. Muitas vezes perdeu. Faz parte!!
Um certo domingo na casa que era dos avós maternos (os que jazem) ela estava numa dessas reuniões de família. Aquelas que chega um parente de fora e os membros que moram na cidade se reunem pra conversar, sorrir e brigar. Típica reunião familiar. Povo dela fala alto e cada um tem a sua razão. A sua frágil e milindrosa razão.
Calada, repensando para sofrer em alguns episódios de sua vida que foram fatais para algumas fases, matou-se e nasceu algumas vezes. Umas cicatrizes meio dormentes restaram para dar ar a melancolia. Olhar parado e boca entre-aberta. Uma característica de quando está voando, pairando por cima das conversas e feitos já conhecidos. Aquela casa grande sussurra em seus ouvidos, ora que ela fez a coisa certa, ora que ela só fez besteira. Mas uma qualidade ela tem. É consciente de que os erros não são para ficarem chateando o juízo, são a própria vida, são a busca do viver, do acertar e, não são amigos da razão. Doce razão que se perde e se acha. Uma vida cheia de viver só tem um jeito de se aproveitar: pensar pouco!!
- O que faz aqui sozinha tão pensativa que não me ouviu chamá-la?
Aquele era um tio muito muito querido. E ela estava pensando am algo não publicável. Que era de sua mais íntima gaveta. Aquela que tem um fundo falso. Mas como o seu raciocínio era rápido e intrigante afirmou que estava pensando numa coisa que que ele dissera ao ouvir uma música. Havia já algum tempo. Contudo, ela não esquecera jamais, porque embora uma coisa desaprovada, era muito comum. Por isso ela ficou impressionada por ele, um homem maduro e vivido, ter soltado uma dessa. No dia ela ficou intrigada. Jamais acreditou que ele estaria sendo honesto. Ali seria um bom momento para a omissão. Se não pode expressar o que acha ser verdade, cale-se. Assim pensou ela. Nós adultos sabemos que não há como dar na vida sempre a divisão exata. Muitas vezes resta um ou dois, na vida a dois. Até três!!!
- É neném? Qual foi a música?
Ela cantou o trecho que fora xingado no dia:" Tô fazendo amor com outra pessoa, mas meu coração vai ser pra sempre seu. O que o corpo faz a alma perdoa".
Seu tio ficou sem palavras, talvez por perceber que ali estava uma mulher, além de sua sobrinha tão amada por ele de forma paternal.
- Temos que ter discernimento com as situações que a vida vai nos impondo. Fugir de algumas às vezes cai bem.
Ela o explicou seu ponto de vista. Não o estava criticando pelo que seria a traíção descrita na música, mas a posição dele diante das pessoas. Disse-lhe que desejo e amor nem sempre andam juntos. Se a vida a dois fosse para ser perfeita, não haveriam os impulsos. A força da razão é fraca, quase inerte. O amor pode ter o poder do perdão. Mas um único e sequer minuto podem colocar o certo se perdendo no duvidoso. E que o desejo e o prazer são inimigos de amores antigos. E que não é uma posição masculina. Sentir e ter necessidades é de ambos os gêneros. É a vida querendo SIM e a gente querendo o NÃO. O negar... Sabia ela o segredo de seu tio. O amor por uma mulher e o desejo por outra.
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