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terça-feira, 26 de março de 2013

Tempo de Saudade

Um dia desses eu e minhas amigas e amigos estávamos na rua a noite brincando " da bandeira". Fazíamos tipo uma quadra na rua, riscando o calçamento ( hj está asfaltada) com carvão. Pegávamos um galho que simboliza a bandeira, de cada lado. Através de escolhas, ora um lider, ora outro, o grupo a defender a sua bandeira se formava. Era tudo aos gritos e bastante euforia. Corríamos por horas. Perdi e ganhei várias vezes. Tínhamos os joelhos ralados, cabeça dos dedos feridas...Era comum alguém c aquela cor do mercúrio em alguma parte do corpo. Nesse tempo as minhas costelas apareciam. Ai que saudade disso tudo.
Tinha uma agilidade, impulsão, visão de quadra perfeita. Raciocínio rápido para elaborar o plano para chegar a vitória. Gritava, mandava e era grande. Com onze anos media 1,68 m e já apontava a puberdade que claro, era indesejável.
Dentro de nosso grupo éramos como irmãos. Íamos na casa uns dos outros e entrávamos sem bater. Tínhamos também uns códigos: assobios na porta de quem estava de castigo. Minha avó odiava quando eu respondia um assobio. Ela achava coisa de moleque. Mas eu era uma moleca!!! A gente se metia na vida uns dos outros. E se descobríssemos alguém apaixonado era a morte!! Mas éramos cúmplices e parceiros. Nas saídas de bicicleta os maiores sempre guiavam os menores.
Eram tempos diferentes. Havia pessoas ao nosso redor que não existem mais. O leiteiro, o carteiro - os muros cresceram e agora não temos mais contato c eles. O carteiro dizia: hj tem carta pra vc, linda! - a costureira, o sapateiro, o guarda de trânsito em frente ao colégio, a dona Maria do dindim ( chupe-chupe, suquinho), A quadrinha da dona Ísis e a adorável casa alheia. Ah como eu amava a margarina da casa da Lília. Era gostosa!! O pé de siriguela, de manga rosa. Manelzim e dona Edna.
Hoje estamos adultos. Somos pais. Ninguém se perdeu no caminho. Uns partiram preocemente. Não nos vemos mais com a frequência que existiu em nossa infância. Mas quando a gente se encontra parece que nunca nos separamos. Estamos cada um em seu caminho. Enfrentando as consequências de nossos erros e festejando os nossos acertos.
Certo dia César me viu entrar na casa de minha mãe. Eu não o vi. Ele foi até o portão e me chamou. Tive a sensação daqueles tempos de menina. Oiiiii, aconteceu alguma coisa? Perguntei, porque estranhei ele ali. Mas ele apenas queria me ver. Ganhei um abraço e felicitações de Feliz Natal. Coisa mágica. Ele me contou que Rosi sua irmã havia lhe contado que eu chorei quando entrei na casa dos pais deles. Lá foi palco de muitas brincadeiras e alegrias. Festinhas. Passei muitos anos sem entrar na casa de Seu Ribamar e dona Desterro, que hoje descansam em paz. Lá moram duas irmãs. Pessoas maravilhosas que não constituíram núcleos, mas que são tias presentes.
Os pais estão cada vez, cada ano, partindo. Os que ainda vivem estão velhinhos. O tal câncer também os ronda e os leva aos poucos.  Enfarte, AVC...são tristes notícias.
Nossos filhos são como sobrinhos de todos. Muitos nem sei se reconheço mais. Mas não é por isso que os esqueço. A gente torce por cada um de longe. Marise já é avó!! Ai meu pai!! Não quero ser chamada de avó tão cedo. Sei que as avós de hoje são mais jovens, trabalham fora, namoram, vivem suas conquistas...mas ...mas...O netinho dela é uma graça. Ela diz que sou tia avó dele. Bom, desde que ele me chame só de tia, está tudo bem. É muito amado o filho de Vanessinha.
Seria bom se o corpo da gente tivesse a idade da cabeça, da mente. No meu caso seria bom. Sei que tem gente nova-velha. Diabo de uns limites desagradáveis!!Tem essa não de envelhecer bem. Não acredito nisso!A não sei que a gente tenha aquela doença de perda da memória para as coisas do presente.
Bom mesmo é ser jovem e não ter o medo de acreditar na felicidade, mesmo ela sendo momentânea.
Valéria Hidd




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